Coletânea

Mundos de Primo Levi

Renato Lessa e Rosana Kohl Bines

Uma das maiores contribuições da obra de Primo Levi no atual contexto é à nossa capacidade de transformar traumas do passado em memórias para futuros. As marcas trágicas de uma vida – seja de um indivíduo, seja de uma sociedade, seja de uma nação – nem sempre conseguem atingir uma elaboração coletiva que permaneça de forma pedagógica na imaginação pública. Nesse sentido, o trabalho diversificado produzido por Levi em quatro décadas de ação intelectual é um dos mais contundentes para entendermos a tarefa política que ainda envolve temas chaves como memória, testemunho e narrativa.

É nessa amplitude de questões nodais da existência que a obra de Primo Levi permite a constituição de uma comunidade de pesquisadores cujo perfil é, necessariamente, multidisciplinar. Os encontros que vemos nesta coletânea, frutos do Colóquio Mundos de Primo Levi, realizado em setembro de 2019 pelo Centro Primo Levi em associação com o Instituto de Estudos Avançados em Humanidades da PUC-Rio, retratam a trama de saberes que fazem do autor homenageado um campo profícuo de reflexões sobre o contemporâneo. Filosofia, literatura, psicanálise, direito e política são alguns dos eixos que circulam com extrema qualidade nos textos aqui publicados.

Nessa ampla visada sobre a obra e a vida de Levi, a coletânea organizada por Rosana Kohl Bines e Renato Lessa articula tanto a profundidade de ensaios que mergulham em recortes caros ao autor italiano, quanto o convite para os que querem se aproximar pela primeira vez do seu trabalho. São textos que apresentam a pertinência de um pensamento cuja provocação atemporal nos apresenta os limites entre a razão iluminista e a aporia das tragédias produzidas pela humanidade, as fissuras entre os fatos e os relatos sobre os mesmos, o perigo constante do negacionismo histórico e científico e a força de narrar histórias como meio decisivo para a produção de novas imaginações políticas.

Fred Coelho
Departamento de Letras da PUC-Rio

Revista Hurbinek – Ano 2024 | Nº 1

O presente número tem como núcleo temático a poética de Primo Levi, faceta menos conhecida de sua obra. No entanto, sua trajetória como escritor, iniciada em 1947 com a primeira edição de É isto um homem?, foi precedida da publicação do poema Buna (1945), alusivo à experiência do autor como interno em Auschwitz. Ao longo de sua obra, Levi viria a publicar dois livros de poesia – A taberna de Bremen (1975) e Em uma hora incerta (1984). Depois de sua morte, ocorrida em 1987, vinte poemas inéditos vieram a lume, sob o título de Outras poesias, incluídas em suas Obras completas(1997), organizadas por Marco Belpoliti, intituladas como Outros versos. Além dos poemas, os leitores de Primo Levi bem sabem do quanto sua prosa contém forte dimensão lírica, traço finamente detectado por Italo Calvino, em resenha por ele escrita em 1947, a respeito de seu livro de estreia. Com este número reunimos quatro ensaios, três dos quais diretamente referidos à obra poética de Primo Levi e um quarto que, dedicado a Paul Celan, refere-se ao mesmo conjunto temático. Abrimos o volume com um ensaio da psicanalista e poeta Lucíola Macêdo, autora de livro recente a respeito da poesia de Levi. Na sequência, publicamos um amplo ensaio introdutório, da lavra de Lorenzo Marchese, da Universidade de Palermo/Italia, especialista com obra expressiva dedicada sobre a mesma matéria. Um ensaio elaborado por Rui Miguel Ribeiro, tradutor português de Em uma hora incerta, considera a dimensão poética de Primo Levi e suas relações com o antifascismo e com Israel. O ensaísta português António Guerreiro completa o núcleo temático, com um ensaio a respeito da impossibilidade do testemunho na poesia de Paul Celan. O conjunto de ensaios deste número completa-se com a contribuição de Marcella Granatière, sobre imagens e reconstrução da memória na obra da artista visual e escritora Terry Kurgan. Neste número, apresentamos, ainda resenhas dos livros Primo Levi e a poesia, de Lucíola Macêdo, elaborada por Elaine Martins (Cefet/MG), e Crematório Frio, de Josef Debreczeny, escrita pela historiadora portuguesa Irene Flunser Pimentel (UNL). Por este último texto, agradecemos à Editora Temas e Debates, de Lisboa, pela autorização a publicar.

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Revista Hurbinek – Ano 2023 | Nº 2

O presente número de HurbineK contém quatro ensaios densos a respeito de diferentes facetas da obra de Primo Levi e de temas convergentes com o repertório leviano original. No primeiro ensaio, Márcio Seligman-Silva, a partir da imagem do retorno do bumerangue, introduzida por Aimé Césaire, procura vincular o fenômeno da Shoah ao quadro precedente das violências coloniais, no que designa como virada pós-colonial. Para tal, incorpora em sua análise o rico debate desenvolvido na configuração dessa perspectiva. Maxim Shrayer traz-nos a persona literária e a trajetória do escritor russo Vassily Grossman, autor de obra fundamental como testemunho da Guerra Patriótica soviética contra o nazismo e da Shoah, marcada também por seu não-alinhamento para com o regime stalinista. Domenico Scarpa, a partir do grande estudo biográfico sobre Italo Calvino, publicada na Itália, em 2023, destaca de seu livro aspectos da relação mantida entre seu biografado e Primo Levi – seu amigo e alma gêmea -, marcada por forte cumplicidade existencial (política, literária e fantástica). Entre essas linhas de afinidade, destaca-se o sentimento de desordem inerente às coisas do mundo natural e humano, e a imposição de ilhas de ordem, tão necessárias quanto mutantes. Simone Ghelli, trata da questão do ateísmo de Primo Levi, valendo-se de uma associação, tão original quanto fundamental, entre o escritor italiano e o filósofo cético Pierre Bayle, autor do principal argumento em defesa da tolerância, no século XVII, ao qual acrescentou a defesa de uma república de ateus. Ghelli parte do conto de Primo Levi – Verso Occidente -, no qual uma sociedade fictícia livre de convicções metafísicas amplia o âmbito d liberdade humana. O ensaio considera, ainda, alguns dos temas centrais da imaginação primoleviana: o acaso, a anti-teodiceia e a ausência de justificações para a desigualdade.

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Revista Hurbinek – Ano 2023 | Nº 1

Este número reúne quatro artigos, que exploram vertentes diversas da obra de Primo Levi e seu legado. O primeiro deles – de autoria de Anna Basevi – propõe um diálogo entre Franz Kafka e Primo Levi, tomando como eixo dois de seus personagens, Odradek e Hurbinek, presentes respectivamente nas obras O processo e A trégua. Pedro Caldas, no segundo artigo, trata da recepção de uma das mais importantes obras de Primo Levi – A tabela periódica – pela crítica italiana, imediatamente após o seu lançamento em 1973. Leila Danziger, no terceiro artigo, comenta as imagens de obras de sua autoria como artista plástica, exibidas em mostra por ela realizada no Museu Judaico de São Paulo, entre julho de 2022 e janeiro de 2023. Trata-se de uma aproximação visual com temas caros a Primo Levi. O quarto artigo, de autoria de Renato Lessa, explora as possibilidades de uma “antropologia primoleviana”, com base em referências à condição humana presentes na obra de Primo Levi. Duas resenhas completam o conjunto dos textos, de autoria de Sergio Schargel e Jimmy Sudário, a propósito de dois livros cujas temáticas inserem-se no campo primoleviano.

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Revista Hurbinek – Ano 2022 | Nº 2

Este volume, para além de textos originais de autores brasileiros sobre Primo Levi, apresenta um pequeno dossier a respeito de Jean Améry. Dois ensaios inéditos no Brasil, já publicados na Argentina e na Itália, também são incluídos. O volume inclui ainda, em primeira mão, texto de conferência do historiador Dan Diner, sobre sentidos distintos da ideia de morte.

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Revista Hurbinek – Ano 2022 | Nº 1

Este primeiro número está composto integralmente por textos apresentados no Colóquio Mundos de Primo Levi, em alusão ao centenário de nascimento do escritor, realizado na PUC-Rio, em setembro de 2019.

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