A trégua

1963: Primeira edição italiana, Turim, Editora Einaudi

1997: Primeira edição brasileira, São Paulo, Editora Companhia das Letras, Tradução de Marco Lucchesi

Trecho retirado de Renato Lessa, “À guisa de posfácio: o trajeto leviano”, In: Renato Lessa & Rosana Kohl Bines (orgs.), Mundos de Primo Levi, Rio de Janeiro: Editora da PUC-Rio.

Entre 1961 e 1962 Primo Levi escreveu seu segundo livro, A Trégua, publicado em 1963. O livro percorre os cerca de nove meses que decorreram entre a libertação do campo, em janeiro de 1945, e o regresso de seu autor a Turim, em outubro daquele ano. A narrativa retoma o ponto no qual foi interrompida no livro anterior, no momento da chegada ao Campo de soldados do Exército Vermelho, dando azo à impressão de que se trata de uma continuação do livro anterior. Há, no entanto, diferenças fundamentais. Um dos aspectos é o da presença de um “humorismo e de uma verve picaresca”, tal como ressaltado por Marco Belpoliti. Os efeitos do quadro metafórico definido pela ideia de “fundo”, como elemento estruturante de É isto um homem?, ainda estão, por certo, presentes, sobretudo nas páginas iniciais nas quais Levi nos fala de Hurbinek, o menino mudo de três anos, apresentado como um “filho de Auschwitz”. Primo Levi descreve suas dores, seu corpo e sua incapacidade de inscrição no domínio da linguagem, e faz desse quadro uma ocasião precisa para afirmar sua vontade de testemunho: falar por Hurbinek e inventar uma linguagem capaz de transmitir, não uma dor pessoal, mas algo que já não mais existe e que foi expelido do mundo.

Mas, de qualquer modo, o trajeto de volta representa uma saída física do universo do Campo, acompanhado por certo de marcas indeléveis, mas atravessado pelos imponderáveis de um trajeto homérico, que a partir de Auschwitz, percorreu em direções variadas o território soviético, até que o regresso a Turim se apresentasse como possível. Na trama um tanto aventuresca, o humor e o ânimo picaresco aparecem em meio a uma primeira observação do “que é o homem” fora do Campo. O confinamento de Auschwitz dá lugar ao movimento vago e sem direção, ainda que sob a vigência do selo originário do Campo. Daí o nome do livro: A trégua e não qualquer outro termo que denote “saída” ou “libertação”.

Em uma de suas muitas entrevistas, Primo Levi indicou de modo claro outro aspecto que distingue as duas obras, ao comentar a respeito de A Trégua: “Desta vez escrevi de modo metódico, consciente do fato de que estava a escrever um livro, começando do princípio”[1]. Na edição escolar do livro, saída em 1965, destacou ainda o aspecto da idade do autor: “não apenas sou quinze anos mais velho, mas mais pacato e tranquilo, mais atento à tessitura da frase, mais consciente: em suma, mais escritor em todos os bons e maus sentidos do termo”[2].

O ímpeto de escrever A Trégua foi em grande medida derivado do sucesso da segunda edição de É isto um homem?, enfim publicado pela prestigiosa editora Einaudi, em 1958. Outro aspecto favorável foi o do crescente interesse pelas narrativas a respeito do Holocausto e dos campos de extermínio, um quadro para o qual o próprio Primo Levi contribuiu tanto por meio de artigos na imprensa quanto pela participação direta em palestras e debates públicos. Com A Trégua, Primo Levi obteve o seu primeiro grande prêmio literário – o Premio Campiello.

Apresentação do livro A trégua para a coleção de obras de Primo Levi publicada semanalmente pelo jornal La Repubblica, a partir de 20/01/2024.

Domenico Scarpa

(Centro Internazionale di Studi Primo Levi/Torino)

A apresentação de A trégua exige o emprego abundante de citações do texto. Somente assim é possível compreender o título de uma obra que começa e termina com o mesmo pesadelo: depois de escapar da morte no Lager, depois de reencontrar sua casa, sonhar em ser acordado pelo toque da alvorada em Auschwitz, “uma palavra estrangeira, temida e esperada: levantar, Wstawać“. É esse pesadelo, presente na poesia- epígrafe e na última página do último capítulo do livro, que nos fornece o significado da palavra “trégua”: um breve intervalo em uma guerra que nunca termina, uma guerra que está novamente em andamento em nossa Europa, ameaçando apagar dois países e dizimando diversas populações.

A Europa de 1945, pela qual Primo Levi é arrastado em uma peregrinação complexa de oito meses, documentada por um mapa meticuloso, é uma terra devastada por seis anos de conflitos e percorrida por hordas ruidosas e de cores diversas: “o mundo ao nosso redor parecia ter voltado ao Caos primordial e estava cheio de exemplares humanos escalenos, defeituosos, anormais”. Chama a atenção, no caos de um continente, a nervura, a precisão, a alegria dessa linguagem. Testemunhada por três adjetivos extraordinários – “escalenos, defeituosos, anormais” – esta é a essência de A trégua, para a qual Giorgio Manganelli utiliza quatro adjetivos igualmente extraordinários: “astuta, cigana, trágica e sórdida”. É bom lembrar disso ao ler as aventuras do grego Mordo Nahum, do romano Cesare ou do Mouro de Verona. É bom lembrar disso porque a epopeia imparável de A trégua não apenas mereceu em 1963 a outorga da primeira edição do Prêmio Campiello, mas com sua diabólica generosidade de palavras prenunciou um escritor completamente diferente do que até então havia sido: o escritor fantástico que, sob nome falso, mas com o mesmo ímpeto, três anos depois, publicaria os quinze contos de Histórias Naturais.

(Tradução: Renato Lessa)

[1] Entrevista a Rita Caccano de Lucca e Manuela Olagnero, In: Mondo Operaio, vol. 3, 1984

[2] Cf. Primo Levi, La Tregua: edizione scolastica, In: Primo Levi, Opera Completa, Vol. I, Torino: Einaudi, 1997, p. 1145.

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