Se não agora, quando?

1981: Primeira edição italiana, Turim, Editora Einaudi

XXXX: Primeira edição brasileira, São Paulo, Companhia das Letras

Trecho retirado de Renato Lessa, “À guisa de posfácio: o trajeto leviano”, In: Renato Lessa & Rosana Kohl Bines (orgs.), Mundos de Primo Levi, Rio de Janeiro: Editora da PUC-Rio, 2021

Em 1982, Primo Levi foi agraciado pela segunda vez com o Premio Campiello, conferido desta feita à única obra à qual atribuiu o selo de “romance”. Se não agora quando?, embora inscrita no domínio ficcional, baseou-se nos chamados “fatos reais”. Trata-se da aventura de um grupo de cerca de trinta guerrilheiros, composto por resistentes judeus russos e poloneses, sobreviventes dos guetos e dos massacres impostos pelos comandos especiais alemães, e ativo na região pantanosa de Pripets, na Bielorrúsia então ocupada. 

Uma das motivações fortes do livro foi a de desfazer o mito da apatia judaica diante do extermínio, fixado na suposição de uma difundida inexistência de reação. Desde 1945, Levi conhecia histórias a respeito de judeus retornados e pertencentes a grupos partisans, tal como um grupo chegado a Milão que recusou o rótulo de “pessoas deslocadas”, comumente conferido aos sobreviventes, afirmando sua condição de resistentes [1]. Ademais, o interesse de Levi pela cultura yiddish – desperto a partir do contato com judeus da Europa oriental, durante a internação em Auschwitz -, levou-o não só a aprender algo do idioma como a buscar fontes documentais a respeito da resistência judaica armada, em arquivos aliados e em relatos de sobreviventes. O mais valioso de todos foi o testemunho do comandante guerrilheiro Moshe Kaganovich, cuja publicação foi encontrada por Levi na Biblioteca Nacional da França, intitulada “A guerra dos judeus partisans na Europa oriental”, editada em Buenos Aires, em 1956. A trama investigatória, de sabor borgeano, mostra o empenho de Levi de fundamentar a ficção em uma dimensão “hipotética e plausível”, assemelhado à defesa da “autenticidade” como suporte narrativo, feita ao final de A chave estrela.

O título conferido ao livro decorre desse mergulho leviano na tradição cultural e religiosa os judeus orientais. A expressão “se não agora, quando?” foi retirada de uma passagem das Pirkei Avot – a “Ética dos Pais”, que compõe a Mishná judaica -, cuja íntegra é: “Se eu não sou por mim, quem será por mim? E se eu sou por mim, o que sou? E se não agora, quando?”.

Marco Belpoliti sintetiza com precisão o desenho geral do livro:

“Levi escreve um romance de invenção – tal como afirmou muitas vezes -, mas ancorado solidamente em um contexto histórico em grande parte semelhante ao que ele mesmo viveu (um paralelismo sempre sublinhado entre A trégua e Se não agora quando?”[2].

O “romance de invenção” leviano, contudo, pode ser associado a outro contexto histórico e biográfico, qual seja, o da sua própria experiência de constituição de um grupo guerrilheiro, ainda que em modo larvar e amadorístico (tal como sempre acentuou). De algum modo, a aventura “hipotética e plausível” dos guerrilheiros na Bielorússia está associada a sua própria aventura abortada. Não tendo tido a experiência direta da ação armada continuada, Levi acabou por trazer o “testemunho” da resistência para o seu quadro narrativo a respeito de Auschwitz e da Shoah. Um “testemunho” que não se limita ao registro de atos “plausíveis” de heroísmo, mas sobretudo – em ênfase tipicamente leviana na centralidade da língua – da encenação “hipotética” de uma linguagem em ato e, como tal, de uma forma de vida: “Tive que dar a impressão ao leitor de que os diálogos entre os meus personagens, obviamente em italiano padrão, foram traduzidos do yiddish, uma língua que não conhecia bem e que o leitor italiano médio desconhece”. O livro, por fim, teve recepção consagradora e foi agraciado, também, com o Premio Viareggio.

[1]Em particular, ver a preciosa entrevista conferida por Primo Levi a Barbara Kleiner, “: Ritratto dela dignità e dela sua mancanza negli uomini” (“Retrato da dignidade e de sua falta nos homens”), “NTZ. Neue Musikzeitung”, XXXV, n. 8-9, 08-09/1986. In: Primo Levi, Opere Complete III, op. cit., pp. 615-619. Ver, ainda, o texto de uma conferência feita por Primo Levi, em Bellagio, em 1982. Cf. Primo Levi, “O itinerário de um escritor judeu”, In: Primo Levi, A assimetria e a vida. Tradução de Ivone Benedetti. São Paulo: Editora da UNESP, 2014 (2002), pp. 253-271.

[2] Cf. Marco Belpoliti, op. cit., p. 427.

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