1978: Primeira edição italiana, Turim, Editora Einaudi
XXXX: Primeira edição brasileira, São Paulo. Companhia das Letras
Trecho retirado de Renato Lessa, “À guisa de posfácio: o trajeto leviano”, In: Renato Lessa & Rosana Kohl Bines (orgs.), Mundos de Primo Levi, Rio de Janeiro: Editora da PUC-Rio, 2021.
Três anos depois, em 1978, aposentado de seu trabalho de químico, Primo Levi publicou seu quinto livro – A chave estrela – considerado por Marco Belpoliti como o “livro gêmeo de A tabela periódica”[1].
Chave estrela tem como estrutura narrativa o diálogo e a interação entre um químico industrial – alter ego de Primo Levi – e um operário especializado, montador de estruturas industriais complexas e de grande porte, Tino Faussone, personagem central do livro. A “ação” teve como ocasião a estada de ambos na União Soviética, por razões profissionais. Com efeito, Primo Levi ali esteve, em visita técnica como químico industrial, entre 1972 e 1973, o que confere ao alter ego literário uma dimensão realista. Quanto à existência real e biográfica de Faussone, Levi, ao final do livro, fez-se valer de Joseph Conrad, em passagem da novela Typhoon (1902), ao sustentar um efeito de veracidade no qual a realidade diz menos do que a “autenticidade”[2].
Italo Calvino, na apresentação do livro, indicou duas características de Faussone, um dos personagens mais extraordinários do universo de Primo Levi. Ao mesmo tempo em que encarna uma cultura obsessiva de destreza técnica, em “batalha contra os materiais e as condições ambientais”, Faussone possui uma “vida picaresca”, marcada por um deslocamento incessante pelo mundo ,sobre o qual aplica seu “olhar divertido e irônico”, como antecipação do prazer de contar, ao “transformá-lo em dialeto e em jargão”.
Através de Faussone, Primo Levi formula um elogio aberto do trabalho. Em entrevista, foi claro a respeito: “Como o meu Faussone, eu celebro a religião do trabalho”[3]. Um elogio transmitido pela linguagem particular do herói operário. Trata-se, antes de tudo, de retirar a ideia e a cultura do trabalho do “buraco escuro de Auschwitz” no qual foram atiradas pela lógica do Campo: o trabalho forçado como reserva de indignidade e preâmbulo da expulsão da vida. Ao mesmo tempo, há um claro elogio do trabalho com as mãos. Faussone, em sua última fala no livro sugere a seu interlocutor – que acabara de mencionar o desejo de aposentadoria para se dedicar à escrita – que não perdesse de vista a importância do trabalho com as mãos: “…fazer coisas que podem ser tocadas com as mãos é uma bela vantagem; é possível confrontá-las e saber quanto valem”. E acrescenta: “A gente erra, se corrige e depois não erra mais”[4]. A voz do montador Faussone sugere um movimento de devolução do trabalho ao âmbito humano – nem destruído pela loucura do Lager; nem desumanizado pela distopia da fantascienza. A dimensão táctil é condição de integridade existencial.
Ao mesmo tempo, o tema leviano da transmissão é reposto em chave pós-auschwitziana. Faussone, ao mesmo tempo em que enfrenta suas façanhas técnicas, antecipa o prazer que sentirá e transmitirá ao “transformá-las em dialeto”. O abrigo dado pelo livro à linguagem de Faussone é apontado por Primo Levi como um objetivo central do livro, para além do elogio do trabalho humano:
“Preencher um nicho ecológico, qual seja o de conferir direito de cidadania ao novo italiano-piemontês que hoje se fala na Turim operária, com suas novas metáforas e um novo léxico derivado do mundo tecnológico. Pasolini fez o mesmo com o dialeto romano do subproletariado[5] . Porque não tentar uma operação análoga com relação ao mundo operário piemontês, oferecendo ao mesmo tempo uma visão dessa micro civilização do trabalho que merecia sair da sombra literária”[6] .
O romance de Faussone – “personagem vagamente neurótico” e “possivelmente filiado ao Partido Comunista Italiano”- foi aclamado pela crítica italiana, tendo recebido, no ano de seu lançamento, dois prêmios literários, o Strega e o Bergamo.
[1] Idem, p. 258
[2] Idem, p. 198
[3] Entrevista a Giorgio De Rienzo, “Primo Levi: ‘Come il mio Faussone, io celebro la religione del lavoro’”, “Stampa Sera”, 29/12/1978. Cf. Primo Levi, Opere Complete III, op. cit., pp. 121-124.
[4] Cf. Pier Paolo Pasolini, Ragazzi di vita, Milano: Garzanti, 1955 (Edição brasileira: Meninos de vida. Tradução de Rosa Artini Petraitis. São Paulo: Brasiliense, 1985).
[5] Entrevista a Alfredo Cattabiani, “Quando um operaio specializzato diventa un personaggio letterario” (“Quando um operário se torna um personagem literário”), “Il Tempo”, 21/01/1979. Cf. Primo Levi, Opere Complete III, op. cit., p. 131.
[6] Entrevista concedida a Francesco Poli, “Tino Faussone, la storia di un operaio specializzato”, “Quotidiano dei Lavoratori”, VI, 28/02/1979. Idem, p. 144.
